Meio Ambiente • Programas • Conservação da Flora e da Fauna

A região onde está localizada a Usina Hidrelétrica Machadinho é formada por rochas vulcânicas com cerca de 130 milhões de anos, sobre as quais está o rio Pelotas, um dos principais formadores do Reservatório de Machadinho. O rio nasce no alto da Serra Geral, a 1.600 metros acima do nível do mar e vem descendo entre encostas íngremes, num extenso vale encaixado, de difícil acesso em vários trechos e formado por terras pouco adequadas ou impróprias para o cultivo agrícola. Todas essas características e a baixa ocupação populacional da região favoreceram a implantação da Usina Hidrelétrica Machadinho, e a formação do reservatório com menor ocorrência de impactos ambientais.

Na área de influência da UHE Machadinho ocorrem três tipos de vegetação originais distintas, e sua fauna associada: Floresta do Rio Uruguai (Floresta Estacional Decidual), que ocorre nas margens dos rios Uruguai, Pelotas, Canoas e de seus principais afluentes; Mata de Araucária (Floresta Ombrófila Mista), que ocorre em altitudes superiores a 700, 800 metros e a Região das Savanas ou campos, nas áreas mais elevadas, nos altiplanos. Em todas essas formações originais existiam, desde a fase de colonização da região, focos de alteração provenientes de um intenso desmatamento seletivo, com a exportação de madeira bruta, seguida da exploração agrícola rudimentar e criação de gado. As levas de colonizadores que chegaram à região por volta de 1870, sobretudo de italianos, localizaram-se nas áreas cobertas pela Floresta Ombrófila Mista Montana, que foram desmatadas em vários trechos, para implantação da policultura – trigo, milho, feijão, videira – e pequenas áreas de pastagem.

A paisagem resultante desse processo histórico de ocupação, na chegada da UHE Machadinho, foi um cenário com variados níveis de cobertura vegetal, mais preservado nos segmentos dos vales mais encaixados, de difícil acesso e sujeitos a enchentes periódicas.

Dentre os programas desenvolvidos na etapa de implantação da UHE Machadinho, a limpeza da bacia de acumulação, onde seria instalado o futuro Reservatório, deveria ser precedida por um completo levantamento das espécies vegetais e animais, visando criar as melhores soluções para mitigar e compensar os impactos decorrentes da alteração irreversível da paisagem que seria futuramente submersa. Essa fase de trabalhos, envolvendo o resgate e salvamento da flora e fauna foi realizada pela empresa Bourscheid Engenharia e Meio Ambiente S/A.

Para tanto o Programa de Conservação da Flora e da Fauna foi subdividido em quatro sub-programas:

- Salvamento da Flora e Proteção do Reservatório;
- Unidade de Conservação;
- Salvamento e Manejo da Fauna Silvestre;
- Monitoramento e Manejo da Ictiofauna.

As listas de fauna e flora das espécies registradas na área de influência da UHE Machadinho e respectiva referência bibliográfica estão nos links abaixo:

Flora
Lista de Flora


Fauna
Lista de Reptiliofauna
Lista de Herpetofauna
Lista de Avifauna
Lista de Mastofauna


Salvamento da Flora e Proteção do Reservatório

Em decorrência da implantação do empreendimento, a vegetação natural, constituída principalmente por estágios secundários de regeneração, deveria ser retirada, antes do enchimento do reservatório, oportunidade em que foram feitas as coletas de sementes. A fim de compensar esse efeito ao ambiente da região, foi implantada uma faixa de vegetação nativa variável no entorno do reservatório, com cerca de 30 metros de largura. Essa faixa, somada aos remanescentes florestais ainda existentes, atinge hoje uma largura de 86,6 metros, em média, compreendendo a Área de Proteção Permanente - APP do Reservatório, e contribui para a formação de corredores de ligação entre os diversos fragmentos da floresta nativa.

Além da revegetação do perímetro do Reservatório e das áreas remanescentes, foram implantados reflorestamentos nas microbacias e em áreas indígenas (ainda que o Reservatório não tenha atingido diretamente nenhuma delas), visando à conservação do solo e da água na bacia de contribuição do Reservatório.

A recomposição vegetal da faixa ciliar e das demais áreas foi possível mediante o emprego de mudas produzidas nos viveiros florestais implantados especialmente para os reflorestamentos da Usina Hidrelétrica Machadinho. Entre 2001 e 2002 foram desenvolvidas mais de 500 mil mudas.

No seu conjunto, a Usina Hidrelétrica Machadinho totalizou, até início de 2007, o plantio de mais de um milhão e cem mil árvores, o que corresponderia à cobertura vegetal de cerca de 1.100 campos de futebol.

Quanto às espécies de flora coletadas foram registradas as seguintes quantidades:

Espécies de flora coletadas

Tipo

Quantidade

Sementes

1.500.000

Mudas

20.000

Estacas

4.000

Exsicatas

3.000



Dentre as atividades desenvolvidas nesse Programa, constam:

1. Revegetação das áreas recuperadas no canteiro de obras - Plantio de 68.400 mudas.

2. Recomposição vegetal da faixa ciliar no entorno do reservatório - Plantio de 376.300 mudas florestais nativas.

3. Reflorestamento das áreas remanescentes - Plantio de 103.000 mudas florestais nativas.

4. Reposição florestal - a título de compensação ambiental de áreas situadas no Estado do Rio Grande do Sul, compreendendo:

4.1. Reflorestamento em área indígena de Cacique Doble - Plantio de 61.944 mudas florestais nativas.
4.2. Reflorestamento em área indígena do Ligeiro - Foram plantadas 37.140 mudas florestais nativas.
4.3. Reflorestamento da micro-bacia do rio Carazinho em São José do Ouro - Foram plantadas 184.826 mudas de espécies florestais nativas e replantadas 15.338 mudas.
4.4. Implantação do Centro de Educação Ambiental de Espigão Alto - Localizado no município de Barracão/RS, nas proximidades do Parque Estadual de espigão Alto.

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Centro de Educação Ambiental de Espigão Alto, município de Barracão (RS).


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Centro de Educação Ambienteal de Espigão Alto - Identificação de espécies da flora local.


4.5. Implantação de sistema Agroflorestal - nativas e erva-mate, no Município de Machadinho.

No período de 2001 a 2006 foram plantadas 315.943 mudas de espécies florestais nativas (erva-mate e outras), pela APROMATE – Associação dos Produtores de erva-mate de Machadinho. Neste projeto é desenvolvido o plantio da erva-mate Cambona IV (progênie adotada pelos produtores rurais pelo seu alto nível de produtividade e resultados obtidos na comercialização da erva-mate).

Após cerca de seis anos de implantação do sistema agroflorestal, os produtores alcançaram um padrão de distribuição ideal das espécies florestais nativas em 1 hectare, conforme apresenta o quadro a seguir:

QUADRO - DISTRIBUIÇÃO DE ESPÉCIES FLORESTAIS NATIVAS EM 1 HECTARE

Espécies Florestais Quantidade de Árvores
Erva-mate (ílex paraguariensis) 2.580
Outras espécies florestais nativas
(ipê-amarelo, cedro, etc)
280
Araucárias
(plantadas na linha de contorno do erval)
80
Total 2.940


O esquema a seguir ilustra a distribuição de espécies florestais em três estratos. Observe-se que as árvores de erva-mate ocupam o primeiro estrato, seguidas em menor número pelas demais espécies nativas. As araucárias são plantadas na linha de contorno dos ervais.

SISTEMA AGROFLORESTAL
Distribuição das espécies florestais em três estratos:
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  • 3º Estrato - Espécies florestais dominantes - Araucária
  • 2º Estrato - Espécies Florestais sub-dominantes - Árvores de outras nativas (Ipê-amarelo, araçá, cedro) ou frutíferas (pitangueira, uvaia)
  • 1º Estrato - Árvores de Erva-mate (ílex paraguariensis)
  • Cobertura do solo (amendoim forrageiro)


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Data: 23 de janeiro de 2001. Vista parcial do Viveiro Florestal da Bourscheid Engenharia Ltda, base de Machadinho - RS, destinados aos reflorestamentos da MAESA. Cobertura de tela de sombreamento para proteção das mudas da incidência da luz solar. À direita, sementeira sendo preparada para a semeadura de espécies florestais nativas cujas sementes são originadas do salvamento da flora do reservatório da UHE Machadinho. Entre 2001 e 2002 foram desenvolvidas mais de 500 mil mudas.



Unidade de Conservação

Os recursos da compensação ambiental da UHE Machadinho, no valor de R$ 3,8 milhões, foram definidos para serem aplicados em Unidades de Conservação de Proteção Integral nas proximidades do empreendimento, decretadas e não totalmente implantadas, caso do Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina, que ficou com 85% dos recursos, e do Parque Estadual de Espigão Alto, no Rio Grande do Sul, com 15% do total.

Parque Nacional de São Joaquim / SC

Os repasses ao Parque Nacional de São Joaquim (SC) visaram, prioritariamente, a regularização fundiária do parque, o que levou à necessidade de promover um levantamento aerofotogramétrico, mapeamento e cadastramento de propriedades, objetivando sua aquisição pelo IBAMA, responsável pela gestão ambiental do Parque. As atividades de levantamento aerofotogramétrico estiveram sob a responsabilidade da empresa AEROSAT Arquitetura, Engenharia e Planejamento Ltda.

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Levantamento Aerofotogramétrico do Parque Nacional de São Joaquim, SC


Parque Estadual de Espigão Alto

Para o Parque Estadual de Espigão Alto, localizado no município de Barracão (RS) os recursos seriam destinados, prioritariamente, para a regularização fundiária e pagamento de serviços e equipamentos solicitados pelo DEFAP - Departamento de Florestas e Áreas Protegidas do Estado do Rio Grande do Sul.

As atividades estabelecidas para o Parque Estadual de Espigão Alto estão sob a gestão da SEMA/ DEFAP - RS, de acordo com o Plano de Manejo do Parque.

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Parque Estadual de Espigão Alto. Foto: Aldo Torniazzo


Pelas atividades desenvolvidas nesse programa, a MAESA - Machadinho Energética S/A, foi contemplada com o Selo de Compensação Ambiental, em 21 de setembro de 2004, pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria de Meio Ambiente (Decreto N.º 43.339/2004), em decorrência da aplicação de recursos no Parque Estadual de Espigão Alto, emanada da Compensação Ambiental integrante do Licenciamento Ambiental.
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Salvamento e Manejo da Fauna Silvestre

A área de influência da UHE Machadinho apresenta uma vegetação já bastante alterada, sobretudo por fatores antrópicos relacionados à época da colonização e da exploração madeireira. Em função dessa alteração a fauna presente na área apresenta espécies remanescentes adaptadas às mudanças ambientais, principalmente as espécies de áreas abertas e de pequeno porte. Na etapa de implantação do empreendimento a fauna típica da região estava acomodada aos ambientes de borda e corredores, dominantes no ambiente fragmentado de pequenas propriedades.

O programa objetivou minimizar a perda da biodiversidade em função do enchimento do reservatório e promoveu o levantamento e resgate de anfíbios, répteis, aves e mamíferos.

Foram executadas ações de monitoramento no pré-alagamento, durante o alagamento (salvamento brando, resgate e monitoramento da fauna) e no pós-alagamento (monitoramento de anfíbios, répteis, aves, mamíferos, de furnas e de remansos). Essas ações foram desenvolvidas no Centro de Operações de Machadinho e nas Bases Operacionais de Piratuba (SC) e Barracão (RS), dotados de administração, laboratórios de fauna e flora, galpão para triagem de materiais, sementeira, viveiro e alojamento. Para o manejo da fauna resgatada contou-se com o Núcleo de Viveiros para Animais Salvos (NVTAS), localizado no município de Machadinho (RS).

Foram coletadas as seguintes quantidades de espécies:

Espécies de fauna coletadas

Grupo

Quantidade

Invertebrados

277

Anfíbios

460

Répteis

404

Aves

333

Mamíferos

420



Salvamento brando - visa demarcar áreas que devem ser mantidas para proteção de ninhos.

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Ninho de gavião-pombo-branco. (Leucoptemis polionota) registrado no município de Machadinho.


Resgate - após o salvamento brando, o resgate visa à condução ou captura para recolocação ou doação, após o que é feito o Monitoramento, visando a observação de anfíbios, répteis, aves e mamíferos, no destino final.



O sub-programa de salvamento e manejo da fauna silvestre desenvolvido pelas equipes técnicas e de especialistas para a implantação da Usina Hidrelétrica Machadinho foi importante para a adoção de procedimentos até então pioneiros nesse tipo de empreendimento. Tais experiências resultaram na adoção, por parte do IBAMA, da Instrução Normativa N. º 146, de 10/01/2007, visando o levantamento, monitoramento, salvamento, resgate e destinação da fauna localizada em áreas sujeitas ao licenciamento ambiental.

Dentre os principais resultados desse sub-programa cita-se a consolidação de um método para geoprocessamento aplicado ao salvamento e manejo de fauna e de um método para monitoramento de fauna.

Pode-se considerar, com base nas atividades de monitoramento, que a fauna de vertebrados está se adequando à nova situação criada após o barramento da UHE Machadinho, pois nenhuma diferença significativa foi notada quanto à sua estrutura antes e depois do alagamento.

Monitoramento e Manejo da Ictiofauna

Este sub-programa teve início antes da implantação da UHE Machadinho e permanece durante sua fase de operação, pois se destina não apenas à adoção de procedimentos adequados para o salvamento durante o desvio do rio e enchimento do reservatório, quanto em propiciar o conhecimento da composição da ictiofauna e a determinação de ações de manejo e monitoramento, visando a promoção da conscientização ecológica.

Desde a fase de implantação da UHE Machadinho foi contratada a UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina e o LAPAD - Laboratório de Biologia e Cultivo de Peixes de Água Doce para realizar os trabalhos de coleta de dados representativos da comunidade de peixes e o resgate e salvamento dos indivíduos. Nessa etapa foram coletados 47 mil peixes durante a etapa de desvio do rio, foram salvos 18.791 peixes durante o enchimento do reservatório e foi desenvolvida a produção de alevinos de espécies migratórias na Estação de Piscicultura de São Carlos. Foram encontradas as seguintes espécies de peixes: cascudo, mandi, lambari, espada, bagre, joaninha, traíra, muçum, tainha, pintado, carpa e dourado.

Dentre os objetivos desenvolvidos neste sub-programa, que continua sob a responsabilidade do LAPAD/UFSC, que geraram ações executadas antes, durante e após o enchimento do reservatório, citam-se: a determinação do ciclo biológico das principais espécies de peixes; a conservação da diversidade genética; o desenvolvimento da tecnologia de cultivo, o acompanhamento do processo de sucessão ecológica no reservatório e à jusante e o desenvolvimento de técnicas para produção de alevinos de espécies migradoras.

Foram realizados estudos da estrutura e dinâmica das espécies, residentes temporárias e extemporâneas; levantadas as relações de similaridade e dissimilaridade, sucessão ecológica, e realizadas atividades pesqueiras visando o armazenamento de exemplares para plantel de reprodutores, o rendimento pesqueiro e a composição do pescado.

Atualmente encontram-se em andamento os seguintes programas:

Tecnologia de conservação in vitro – envolvem as espécies Dourado (Salminus maxillosus), Curimatã (Prochilodus lineatus), Piracanjuba (Brycon orbignyanus), Piava (Leporinus obtusidens) e Surubim (Pseudoplatystoma coruscans).

Desenvolvimento embrionário e larval – compreendem as espécies Piracanjuba (Brycon orbignyanus) e Pintado (Pimelodus maculatus).

Reprodução induzida - nas espécies Dourado (Salminus maxillosus), Curimatã (Prochilodus lineatus), Pintado (Pimelodus maculatus)

Testes de larvicultura – sendo realizados nas espécies Dourado (Salminus maxillosus), Curimatã (Prochilodus lineatus), Piracanjuba (Brycon orbignyanus) e Pintado (Pimelodus maculatus).

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